O sinal de trânsito tem três conceitos, sendo dois objetivos e um subjetivo. Verde quer dizer passe, extremamente objetivo, mesmo caso para o vermelho, pare! E o amarelo? Totalmente subjetivo, pois você pode acelerar e passar antes dele ficar vermelho ou você pode reduzir e esperar o sinal fechar, ficar dois minutos parado e ao abrir, seguir em frente. A escolha está no indivíduo. Mas porque a grande maioria avança? ( Obviamente não falo de horários perigosos, etc...)
Outra: Por que quando não há sinal de trânsito a preferência é do motorista e não do pedestre?
São coisas que na minha opinião estão embutidas na identidade coletiva do nosso povo, ancorado por profundas raízes históricas!
Primeiramente, sempre existiu no nosso país a prática do favor ou da doação. Foi assim no início da nossa história enquanto Estado-nação, na época das capitanias hereditárias. Nossos lotes de terra foram doados em troca de favor. Se pensarmos em termos de escravidão, a liberdade era concedida por alforria, logo, através também do favor. Na prática do voto, idem. Coronelismo, apadrinhamento, cabresto, etc...Resumo, sempre usou-se o público através da apropriação privada. Chega-se a esfera pública através do favor e a utiliza como se fosse uma esfera privada. Essa confusão público e privado reflete-se explícitamente na corrupção generalizada da política nacional. Porém, no trânsito, ela é sutil mas não menos verdadeira.
Indivíduos escolhem seguir em frente no sinal amarelo justamente porque falta na nossa identidade a noção exata de esfera pública, de leis rígidas, de punição em caso de descumprimento. Na verdade o que realmente nos faltou foi a presença do Estado de direito, de cidadania! Logo, aonde a lei deixa margem para a interpretação, para a dúvida, o indivíduo opta quase sempre pela via da trangressão dessa "lei fluida" e não pelo enquadramento a ela. Toma-se o público como privado.
Outra questão: Nunca houve no Brasil uma verdadeira revolução que viesse de baixo, estilo Francesa ou Russa. Nossos "golpes" e "revoluções" sempre vieram de cima. Nossa independência foi proclamada por um português! Nossa breve história enquanto nação é marcada por sucessivos golpes e por pouquíssima democracia. Nunca houve uma mudança radical de ordem. Nunca houve Estado de direito, muito menos de bem-estar social. Nos faltou um Napoleão, ou até mesmo uma revolução burguesa de verdade! E olha que quem vos fala não é um entusiasta do Estado, muito menos burguês!Mas vamos em frente. O princípio básico do estado de direito é a intervenção, regulação, castração da liberdade total de indivíduos e do próprio capital em prol de uma convivência mais harmônica. Talvez o princípio das teorias contratualistas. Do Leviatã!No estado de bem estar social, o estado regula a relação capital-trabalho, evitando uma exploração desenfreada por parte do primeiro. No Brasil, como isso nunca existiu, o princípio que nos govena e que formou nossa identidade coletiva é a lei da selva, ou melhor, um Darwinismo social, ou seja, a lei do mais forte.
Logo, entre um simples pedestre pesando seus 55 Kg e um carro, uma caminhonete ou um caminhão, quem obviamente tem a preferência é o mais forte!
Então, se por acaso você estiver distraído e atravessar sem olhar numa rua sem sinal o risco de ser atropelado é altíssimo. E nunca comece a atravessar quando sinal estiver amarelo, pois fatalmente vão optar por tentar passar!