27 de março de 2009

Ligando o Ventilador

" Na peculiaridade histórica brasileira, todavia, a camada dirigente atua em nome próprio, servida dos instrumentos politicos derivados de sua posse do aparelhamento estatal. Ao receber o impacto de novas forças sociais, a categoria estamental as amacia, domestica, embotando-lhes a agressividade transformadora, para incorpora-las a valores próprios, muitas vezes mediante a adoção de uma ideologia diversa, se compatível com o esquema de domínio . (Raymundo Faoro - Donos do Poder)"


A primeira intenção deste blog era comentar as principais noticias da semana com uma abordagem diferente, mostrando quanto uma noticia pode ser direcionada dependendo da posição ideológica do veiculo de comunicação.

Nas últimas postagens, não temos tratado disso. Temos falado principalmente de cultura, de arte. Não que isto também não seja importante, para mim é até mais importante. Acontece que resolvi seguir uma dica de um grande amigo nos últimos meses. Ele me disse que eu estava muito estressado, que eu tinha que fazer que nem ele;
parar de ler jornal e ver Televisão. Aos poucos fui me desconectando e posso dizer que apesar do meu estresse ser uma condição inerente a minha existência, foi um ótimo período.

Não sei se vocês sabem, mas a mídia brasileira é uma merda! Ela é concentrada, pobre e acha que o leitor é idiota (neste ponto eu até concordo). Isso me causa tristeza, pois foi através do jornal que eu aprendi a ler. A ler mesmo, deixar de ser analfabeto funcional. Foi graças ao Verissimo, ao Jabor, Zuenir Ventura, Mauro Rasi e etc. Com o jornal passei a não temer as palavras, me informei de tudo, de política, literatura, de Pindorama, das indiossicrasias do eterno Balneário de San Sebastian.


Não dá para dizer que o jornalismo hoje não é mais como na minha época, afinal isso não tem mais do que dez anos. Mas é que hoje eu vejo o que se escondia nas entrelinhas e eu não via, por inexperiência e ingenuidade principalmente.


Pois então, mais uma vez eu digo : a mídia brasileira é uma merda! O Brasil é uma merda, e somos todos uns merdas. Tá duvidando? Vamos aos fatos.

À volta dos que não foram:


O Sarney foi eleito pela trigésima vez presidente do Senado. Para quem não sabe, esse senhor é considerado até hoje um dos mais desastrados e ridículos Presidentes do Brasil.

O Collor, sim aquele mesmo Collor! O que sofreu um Impeachment! Não só voltou através do voto popular e democrático (!) para o senado, como foi eleito por seus pares para presidir uma comissão que vai cuidar do principal projeto do governo federal, o PAC. Uma comissão cheia de dinheiro, diga-se de passagem.

Jarbas Vasconcellos, senador do PMDB, considerado homem honrado, diz que o seu partido só tem ladrão e se interessam por cargos que rendam algum. Tem alguma uma novidade ai? Será que já avisaram ao Lula? Por que acho que ele não sabe dessa.


Através da justiça, alegando irregularidade do ex governador Jackson Lago(PDT), a capitania hereditária do Maranhão voltou para as mãos da Roseana Sarney, filha do presidente do senado. Sem mais comentários.

Após a posse, o "presidente" Sarney
bota a culpa na imprensa pela má fama da casa e diz que o Senado não deve só cuidar de burocracias(Tipo votar leis), e sim discutir as "grandes questões da sociedade". É mesmo?


Olha a merda no ventilador...


São descobertas no Congresso Nacional (Senado+ Câmara dos Deputados) mais de 170 diretorias administrativas, com um custo de milhões de reais por ano. Tinha até diretor de vaga de estacionamento!

Funcionários do Congresso Nacional (sempre ele) recebem salários extras, referentes aos meses de janeiro e fevereiro. Bacana, trabalhador tem direito a receber, mas olha só,
o Congresso Nacional não estava de recesso nesses meses?


O esgoto não para de escorrer. ..


Mas quero me deter neste ponto. Porra, depois vem me falar que político é isso e aquilo. São uns escrotos, nós sabemos. Porém e esses muitos bem remunerados funcionários públicos? São o que? No mínimo cúmplices da roubalheira! Sabemos que não é só do congresso que isto ocorre. Não quero entrar no lenga lenga do discurso que no Brasil não existe noção de publico/privado, isso já sabemos. Somos corruoptos, adeptos do jeitinho da malandragem, todo mundo tira vantagem...Aqui a unica ética que tem é a do Macunaima. Hoje eu estou mais para Datena...JACOBINISMO JÀ!

O esgoto continua escorrendo...

A dona da Daslu foi presa (De novo!) e solta (de novo)...

Daniel Dantas foi considerado culpado (De novo!) e recorreu (de novo!)

A pessoa morre antes de ser julgado a última instância neste país, é a pátria do recurso!

O esgoto continua escorrendo...


Tiroteio em plena Copacabana, bala pra tudo o quanto é lado em Botafogo...Meu deus que absurdo...Porra nenhuma, isso é todo dia na Cidade de Deus, em Realengo, na Maré. Não justifica obviamente, mas só quando é na zona sul que tem essa repercussão.

E o Secretario Beltrame culpando os usuários de drogas pela a violência no Rio de Janeiro? Desviar a atenção é feio Secretario! Na Europa, por exemplo, o pessoal se droga muito mais do que aqui e ninguém tem paiol de armas em casa. Os bairros não possuem facções que se invadem mutuamente. Trabalhos e pesquisas sobre o assunto não faltam, você deveria ler-los antes de falar essas asneiras. Inclusive o que o senhor tem a dizer sobre o desmantelamento do instituto de perícia do Estado, após a possível descoberta que policiais teriam sido culpados pela execução de uma jovem na Barra da Tijuca
após sair de um show na Urca?

O esgoto continua escorrendo...


Na França três milhões de pessoas nas ruas protestando contra o desemprego, aqui 35 milhões de votos para eliminar alguém do BBB. A rede Tv usa a morte do Clodovil para subir o IBOPE, os jornais populares fazem piada com as tragédias, os jornais de classe merdia, não passam da superfície das noticias, as escolas estão abandonadas, todos se informam, mas ninguém se forma, ta tudo uma merda, acho que vou voltar para a minha alienação!


Para não dizer que não falei de flores:


Não citei de propósito o grande jornalista e colunista do O Globo(não dá pra ser perfeito né) Arthur Dapieve. Esse sim informa e forma. Com ele entre tantas descobertas, descobri Nick Drake, Leonard Cohen, Jeff Buckley John Fante, descobri que alguém que sente o calor infernal desta provincia tanto quanto eu. Sua coluna desta sexta feira 27 de março sobre o show do Radiohead( voltamos a arte) é emocionante. LEIAM!! Ele escreveu o que eu escreveria se tivesse o seu talento. Até tentei dizer algo parecido ai embaixo, mais ele fez melhor.

22 de março de 2009

Síntese dissonante

O dia 20 de março de 2009 ficará na memória de muitos, como um dos dias inesquecíveis de suas vidas. Neste dia o Brasil viu pela primeira vez ao vivo, após 15 anos de espera, o show de uma das bandas mais importantes da história da música. As dez e cinqüenta da noite o Radiohead abriu com 15 step seu desfile de talento, som, fúria, melancolia e emoção.

O show foi perfeito, todos nos sabíamos que seria antes mesmo de começar. Não havia a menor possibilidade de decepção. Obviamente que algumas musicas "indispensáveis" faltaram. São sete álbuns de sucesso, não é possível encaixar todas. Sempre fica aquele gostinho de quero mais, apesar do cansaço visível após duas horas e meia de euforia e tensão. O final foi apoteótico (com trocadilho e tudo) com Creep, e rapidamente a comoção deu lugar ao vazio.

O buraco negro que se formou em meu peito foi tão grande que não soube na hora dar conta do que estava sentindo. Sabia que tinha faltado algo? Mas o que? Faltou Fake Plastic, faltou Where i End you Begin. Mas não eram as músicas que faltaram. Algo não aconteceu. Criar altas expectativas sempre é uma merda. A realidade nunca se compara a fantasia. Eu tentei durante toda a semana não criar expectativas.Impossível, era o show da minha vida.Foi o show da minha vida! Então o Radiohead decepcionou? Claro que não, foram perfeitos. O Tom estava empolgado. O Colin se divertiu o show todo, Jonny alucinado como sempre. O Ed O´brian se sentindo em casa, "bom pra caralho" ele disse. E o Phil Selway tranqüilo como sempre. Show irretocável. Quem decepcionou fui eu. Sou da turma do Dapieve que disse certa vez "sou do tipo de sujeito tomado pela angústia até na hora de comer pizza no domingo à noite".

Após o começo alucinante, Airbag, There There, vem a primeira surpresa. Karma Police! Centenas de gritos de puta que pariu ecoam na platéia e eu ponho a mão na cabeça. Ali começou, era aquilo que eu queria. Eu queria me perder no show do Radiohead, eu queria deixar de existir, mas eu estava ali, ainda desconectado, não estava totalmente entregue como imaginava que estaria, não chorei como imaginava que choraria, talvez com My Iron Lung? Confesso que quando tocou também de forma surpreendente How to Disappier Completely a garganta deu um nó. Talvez tenha sido o cansaço ou a dor causados pela espera, devido à ridícula idéia de festival. Talvez a adrenalina,talvez apenas a incredulidade de ver os caras ali, materializados, num espetáculo de luzes coloridas. Talvez esteja exagerando, em Idioteque pulei feito louco. A companhia era ótima e animada apesar de uma falta irreparável (você faz muita falta!). Alguma coisa não aconteceu, faltou.

O In Rainbows é a síntese do Radiohead. É o Radiohead descortinando o que será esse começo de século 21. Neste cd as músicas são redondas, uma obra fechada, perfeita. Porém eu não alcancei ainda o In Rainbows. Perdoe-me Tom, mas eu ainda não estou pronto. Eu ainda preciso da melancolia do Bends, da fúria do OK Computer, da demência do KID A / Amnesiac, e principalmente da escuridão do Hail to the Thief. Não estou preparado para o cinismo dançante do In Rainbows. Para o swing de Reckoner, para a leveza de Faust Arp, e a poesia de Weird Fishes. Estamos em tempos diferentes, talvez meu show ideal fosse o de 2003. O In Rainbows,é o disco mais primaveril do Radiohead. Ainda está lá a eterna inadequação com a existência que vem desde Creep. Ainda está lá a critica política e toda a genialidade de uma banda que sempre se supera. Porém para este pobre escriba angustiado, falta a fúria que ele tanto precisa...Falta um pouco da guitarra visceral do Jonny, rasgando meu corpo e minha mente. O que faltou foi isso, a ligação visceral entre o espectador e a banda. Quando tocou You and Whose Army ela até apareceu apesar da inacreditável apatia da platéia que me cercava.

Querido Tom, o lobo ainda espreita a minha porta, e todo à noite ele me chama. Não posso fugir disso. Eduardo Marciano me ensinou a nunca colher o fruto ainda verde , pois ele apodrecerá na sua mão. Tenho certeza que um dia nos veremos de novo, você ainda estará no auge, nós estaremos conectados.Eu sairei dos trilhos como você descreve em Nude , eu poderei enfim me perder, me consumir. Não terei grandes idéias, sem surpresas e sem alarmes. Sem artigos, sem expectativas, somente música. Até lá...

PS: Obrigado pelo melhor show da minha vida !

20 de março de 2009

HOJE ...

Aguenta coração...









18 de março de 2009

A Geração pop e o drama do envelhecimento

"Privado da memória, o homem torna-se prisioneiro de uma existência ilusória; ao ficar à margem do tempo, ele é incapaz de compreender os elos que o ligam ao mundo exterior - em outras palavras, vê-se condenado à loucura." (Andrei Tarkovski- Esculpir o Tempo)


Em 2004, Sir Paul McCartney lançou "Chaos and Creation in the Backyard", sem dúvida, o melhor álbum de sua carreira solo, e atrevo-me a dizer, melhor do que alguns dos primeiros discos dos Beatles, como por exemplo o 'For Sale". Neste disco, toda genialidade de Paul se faz presente nas 13 faixas e o essencial é que soa atual sem ter nada de inovador, ou seja, é um disco carregado de identidade que soa como um disco dos Beatles. Paul fez um disco brilhante sendo quem ele é, ou seja, um senhor de mais de sessenta anos, que produziu uma obra genial ao longo de sua carreira e que por ser tão verdadeira, tornou-se atemporal.

Porém, a minha geração, que cresceu nos anos oitenta e noventa, a chamada "geração pop" sofre com o problema do envelhecimento. Os ícones da geração pop são evidentes: Madonna e Michael Jackson. E o que há em comum entre eles? Ambos não conseguem realmente aceitar o fato de que envelheceram. Madonna vive atrás de plásticas. Tem pra lá dos quarenta e se comporta como uma garota de 18. Ela tem tudo no palco, menos maturidade. Será que a rainha do pop conseguiria em 2020 lançar um álbum inédito, com sonoridade contemporânea, porém soando como Like a Virgin? Impossível.

A falta de identidade em Madonna é evidente, pois sua música não é substancial, porque não pode assumir uma identidade fixa, não pode assumir uma identidade de um ser no tempo, que envelhece, morre e apodrece! Madonna tem que estar sempre fugindo da realidade, inovando continuamente para tentar burlar um monstro invencível...o tempo! Basta ouvir a coletânea "Imaculate" nos dias de hoje e perceber o quão obsoleto são os sintetizadores e a sua estética musical. No show da maracanã, ela teve que mudar todos os arranjos das músicas antigas para torna-las mais palatáveis ao público. Falta identidade e falta memória.Madonna é a metáfora da minha geração. Uma geração que não sabe morrer porque não é ensinada a envelhecer.

Michael Jackson virou um monstro, um personagem do Planeta dos Macacos.Enlouqueceu na paranóia da eterna juventude e foi a bancarrota com a sua Terra do Nunca.Ambos representam a ostentação do capitalismo na sua fase hiperreal, do claustro no presente perpétuo, o espetáculo pelo espetáculo que não pode envelhecer...A verdadeira sociedade do simulacro. "Eles( MJ e Madonna) somos nós!" Pessoas que perderam o trem da história.O homem contemporâneo vive para o hoje, no hedonismo radical do consumo, sem memória afetiva e sem planos auspiciosos para o futuro.

Colecionadores de sensações.A morte não faz sentido para nós que compramos o selo da eterna juventude, porém, o sétimo selo quando aberto....Às vezes me pego pensando como a minha geração que hoje tem quase trinta anos se comportará quando tiver chegando perto da velhice?

O século XXI com certeza será da biotecnologia, da neurociência, e de todos os ramos que pesquisam formas de tornar os humanos super-humanos. Viveremos mais, seremos mais jovens fisicamente e mentalmente, porém, continuaremos sendo seres biológicos que tem um tempo de vida limitado e chegaremos esticados na velhice sem saber o que fazer com tudo isso.Entra em cena mais uma ferida narcísea para nós humanos, fracos e mortais. Além de não estarmos no centro do mundo, de sermos frutos de uma evolução animal tendo o macaco como ancestral e de nosso ego não reinar nem mesmo na sua própria casa, agora teremos que lidar com uma ciência que tudo explica e para pessoas que não sabem envelhecer demonstra que não somos nada além de cadeias de carbono, moléculas, células, átomos, etc...Eis que a indiferença pós-moderna encontra seu maior vilão: A indiferença do tempo!

Para não perder o costume e ilustrar o post: Faltam 2 dias