7 de março de 2009

Sofri um Assalto Inusitado

Tem coisas que só acontecem comigo e com o botafogo! Estava eu, numa manhã bem quente e nenhum pouco agradável de primavera carioca, saindo da casa de um amigo na barra da tijuca pela manhã, quando fui abordado por um cidadão com uma mochila, em frente a uma banca de jornal. Ele encosta me encarando nos olhos e diz:
-Aí parceiro, a situação ta difícil, to sem grana e sei que você tem um aí pra me fortalecer!
Eu, imediatamente pensei: "Pqp! Outra vez comigo", e disse:
-Po parceiro, ta difícil pra todo mundo, mas vou ver se posso te dar uma ajudazinha.
Nesses momentos eu sempre fico tranquilo e tentei levar o cara na conversa enquanto pegava minha carteira. Sinceramente eu não sabia quanto tinha de dinehiro. Quando a tirei da minha mochila, abri bem discretamente e vi que só tinha duas notas de vinte. Pensei: "Me ferrei pois ou eu dava uma de vinte ou não daria nada. Continuei tentando enrolar.
-Então, eu sei que está difícil pra você mas pra mim também não está fácil, estou indo pro trabalho e to com pouco dinheiro.
E ele perdendo a paciência disse:
-"Eu sei que você tem dinheiro aí, pode me fortalecer, to pedindo numa boa, podia estar roubando!"
(Como se não estivesse....afinal, ele estava ameaçando com a mochila, como se nela tivesse arma.)
Enfim, vendo que o imbroglio estava feito, que não havia como sair ileso, dei humildemente uma das notas de vinte. O camarada pegou e eu pensei que estava acabado. Porém logo percebi que estava enganado.
-"Aí irmãozinho, eu vi mais uma notinha de vinte nessa carteira. Pode passar! Manda logo!"
Bom, o que era um assalto implícito virou explícito. Ok, mais uma vez assaltado, pensei.
-"Ok!Te dou mais esses vinte, mas tem uma coisa: agora quem está numa roubada sou eu! Você levou todo meu dinheiro. Pode me arrumar pelo menos um trocado para o ônibus?
O "irmãozinho"primeiramente colocou mais vinte no bolso, pensou, coçou a cabeça, procurou nos bolsos e acabou por me entregar uma nota muito surrada de cinco reais. Eu não tinha mais nada a fazer, a não ser aceitar e tomar caminho de casa.
Só para informação, eu estava indo comprar ingresso para um show, mas teria que ir para casa por causa do ocorrido.
Enfim, o cara apertou minha mão e seguiu seu rumo e eu atravessei a avenida das américas toda para pegar meu ônibus puto da vida por ter sido assaltado de uma maneira tão idiota em plena manhã.
Bom, estava parado esperando o ônibus, quando vejo um muleque atravessando a rua correndo em minha direção e já gritando:
-Ae, você que foi assaltado do ouro lado né?!
Eu pensei: "fala mais baixo porque todos estão olhando! E disse que sim era eu.
-Vem comigo, a guarda municipal prendeu o cara e quer te entregar o dinheiro.
Voltei tudo outra vez. Chegando lá o cara estava algemado, chorando copiosamnete. Quando me viu pediu desculpas, disse que fez aquilo porque estava desesperado. Eu realmente tive pena do homem. Nesse instante já tinha se formado a aglomeração de curiosos e que começavam a dar suas opiniões.
-"Prende mesmo!"
-Leva esse fdp para onde merece"
E outras coisas do gênero.
O guarda municipal, bastante competente, diga-se de passagem, fez todo procedimento padrão, sem se influenciar pelas várias opiniões e sem desrespeitar o acusado, que continuava chorando e se dizendo inocente. Até que ele me perguntou se o acusado tinha me ameaçado.
Bom, eu disse, ele não mostrou arma em nenhum momento, mas obstruiu minha passagem com uma atitude suspeita em relação ao conteúdo da sua mochila.
Nesse momento o acusado jurou que era vontuntário da cruz vermelha, que só levava um latão de recolher doações.
Quando o guarda abriu a mochila, realmente só havia a lata da cruz vermelha.
Bom, não havia muito mais a ser feito. O guarda só podia dar voz de prisão se eu confirmasse o assalto e fosse para delegacia. Ou seja, eu teria que ser o juiz daquele pobre diabo. Estava na minha mão a decisão sobre a liberdade de alguém.
Na hora de decidir eu dei uma vacilada. Os curiosos ao verem que eu não estava certo sobre qual decisão tomar, começaram a cuspir seus pensamentos moralistas pra cima de mim:
"-Você merece ser assaltado mesmo. Espero que da próxima vez ele te assalte com arma!"
"-Se você não prende-lo, ele amanhã estará matando um de nós!
Entre outras coisas.
Resolvi acatar e fui a delegacia. Terminei sendo aplaudido.
Resumo da história: Perdi a manhã toda e parte da tarde. O rapaz foi preso sob acusação de furto. Ele não tinha antecedentes criminais.
E...acho que pela primeira vez na história, o assaltado saiu no lucro num assalto. Pois recuperei meus quarenta reais e quando estava saindo da delegacia percebi que ainda tinha em meu bolso, a nota surrada de cinco reais do assaltante. Ou seja fui assaltado em 40 reais e saí com 45 reais!

Volto a dizer, tem coisas que só acontecem comigo e com o botafogo!

Ps: dois meses depois, recebi uma intimação para o julgamento. Resolvi não aparecer, pois assim por falta de provas ele seria liberado. Dessa vez, não fui hostilizado!

5 de março de 2009

Transportes Coletivos no Rio de Janeiro: Viva o lucro, Foda-se o povo!

Todos já estão cansados de ouvir que o nosso transporte público é horroroso, caótico, dominado por empresários mafiosos, etc, etc...
Pensemos no metrô: desde que ocorreu a privatização, houve a ampliação tanto na zona sul quanto em direção a baixada fluminense, fora a integração via ônibus expresso. Tudo isso acarretou um aumento expressivo do número de frenquentadores diários desse transporte. Segundo estatísticas do próprio metrô, antes da ampliação circulavam diariamente 80 mil pessoas, hoje, mais de 200 mil pessoas todos os dias. O preço da passagem não para de aumentar, porém, quantos carros novos a empresa que administra o metrô colocou para nossa disposição? Nenhum. Ou seja, lucros exorbitantes e respeito zero com o cidadão. E nós, povo dócil, despreocupados, com muitas coisas pra fazer da vida, aceitamos voltar pacificamente para casa, como sardinhas enlatadas, muitas vezes esperando dois ou três trens pra conseguir entrar dependendo da estação, tamanha a lotação. Fora que o ar condicionado, obviamente nesse calor infernal, não dá vazão.


Passando para o ônibus. Ou melhor, antes, analisando a mentalidade do empresário brasileiro, aquela mescla da mentalidade oligárquica com empreendedor terceiro mundista , que nunca soube o que é interesse público, e obviamente só pensa no lucro a custa do bem estar da população e ainda conta com aval do prefeito e do governador que tem rabo preso com eles. Acabo tendo que concordar com meu amigo Thiago que diz que ao Brasil faltou um Napoleão!
Enfim, a situação dos ônibus do rio de janeiro é a seguite: Eles estão diminuindo o tamanho dos ônibus, obviamente não são altruístas ao ponto de fazerem isso pensando no humilde cidadão carioca, mas sim para implementar uma reestruturação que promove a demissão dos trocadores, sobrecarrega os motoristas, que passam a acumular duas funções e aumentam consequentemente os lucros. Assim como o metrô, o número de ônibus não aumenta. Logo, o cidadão como eu e você, dependentes de ônibus para ir para casa, paga caro, fica numa situação extremamente incômoda esperando o motorista sobrecarregado dar seu troco, balançando pra lá e pra cá. Depois, vai em pé, num ônibus superlotado, num calor insuportável. No meu caso, que dependo da linha 234, a situação é pior. Pois este ônibus custa 2,80, pois alega-se que subir o alto da boa vista sobrecarrega e ainda por cima tem ar-condicionado. Só que eu pago 2,80, o ar não dá vazão, eu não consigo sequer ultrapassar a roleta de tão cheio que está, mas vida que segue. Está tudo normal.

Quando morei no Porto em Portugal, na primeira reforma nos ônibus, que diga-se de passagem é municipal e acarretou numa piora significativa, houve greve de passageiros e eles foram obrigados a retroceder. Na França, jamais aceitariam algo do gênero. Mas aqui, pode-se tudo. Viva o lucro, foda-se o povo.

ps: Essa raiva é justificada porque além de ter enfrentado um ônibus lotado num calor infernal, ainda fui obrigado a escutar um babaca ouvindo mp3 no celular nas alturas tocando o acústico da Ana Carolina. Aí dá vontade de se matar!


15 Dias....

2 de março de 2009

Quarta Feira de Cinzas

Publicado por João Paulo Cuenca no Jornal O Globo no dia 14 de fevereiro de 2008

Carnaval já passou

Queria escrever uma crônica para os que passaram um carnaval triste. Para os que acordaram na quarta-feira cinzenta, sozinhos outra vez, com gosto de semana passada na boca. Para os que, inicialmente tímidos e depois desesperados, viram seu amor-próprio desmoronar à medida da seqüência inevitável de rejeições, de tocos, de não-me-toques, de olhares gélidos lançados pelas colombinas, indiazinhas, diabinhas e bailarinas.

Uma crônica para o exército de reserva dos tamborins, para os coadjuvantes fora de quadro, para os que perseguiram o encontro e, mesmo abandonando o que conheciam por critério, acabaram a folia com um zero a zero estampado no placar e na testa. Para todas as moças que se perfumaram e fantasiaram, e dançaram com samba no pé, e distribuíram olhares, e viraram o pescoço, e imaginaram tanto… E nenhum único vem cá meu bem. E nada.
Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo com suas lágrimas. A todos os que flagraram a desejada beijando lividamente um anônimo arlequim, entre centenas de corpos em movimento, sob uma tempestade de confetes e a batucada acelerada de um bloco que, a partir dali, ganhará um sentido de vertigem insuportável. Uma crônica aos que sofreram as insídias do amor durante o carnaval nublado, e que tudo viram com olhos metafísicos, numa percepção aguda da realidade que o latão de cerveja quente jamais vai mitigar.

Aos bêbados que choraram confissões às sombras nas paredes. Aos que lamberam a calçada, beijaram o poste, abraçaram o gelo-baiano. Às mulheres que por aí esqueceram calcinhas e partes irrecuperáveis de si. Aos foliões reflexivos que, no meio do refrão, pararam e se perguntaram: “afinal, o que diabos estou fazendo aqui?” Ao ritimista que atravessou, levou um pescotapa do mestre e foi expulso da bateria no meio do desfile. Aos que se sentem distantes de tudo, mesmo no meio de uma muvuca atroz no Terreirão do Samba da Praça Onze. Aos que foram barrados na porta do camarote da cervejaria. Às passistas de corpo esculpido carregando as flechas de tantos olhares sabendo que nenhum, nenhum deles, realmente a quer de verdade – pois elas, como todas as mulheres, são outras que nenhum, nenhum deles, jamais conhecerá.
Aos melancólicos senhores e senhoras com os cotovelos apoiados nas janelas de Laranjeiras, a quem o carnaval faz lembrar certa pureza esquecida, de bailes em Paquetá, de lança-perfumes e marchinhas de uma cidade que não mais existe – de uma vida que se aproxima do fim. Aos persistentes infelizes por vocação que lotaram salas refrigeradas de cinema, livrarias e cafés tentando fingir que o carnaval não existiu.

Uma crônica que faça uma homenagem aos rebaixados na passarela, que preste tributo aos que tiveram o samba derrotado, que dê consolo aos turistas que foram assaltados e esculachados na cidade maravilha. Um alento aos fracos que desistiram da multidão do Bola, que tiveram medo da Rio Branco noturna do Cacique, que afrouxaram a garganta no único momento que poderia lhes salvar do carnaval triste. Uma crônica que tire um pouco do peso daqueles para quem o término do carnaval é sinônimo de nada mais restar, é caldo de fim de feira às margens do precipício, é tristeza e medo pelo que virá no resto do ano. Porque o ano, depois do carnaval, é resto. É o pouco que sobra.

Acabou, e sempre acaba cedo demais, chega rápido o último dia. Depois, só no ano que vem. Já acabou: as cinzas de quarta-feira caem sobre nossa última dança. Os ambulantes arrastam seus carrinhos, as baterias recolhem suas peças, o eco das notas do samba derradeiro flutua sobre nós. Sob o grave de um surdo solitário, acaba o carnaval. Já limpam as ruas, os carros já vêm. Calam os subúrbios escuros. Calam as avenidas fechadas. Calamos nós. Acabou. Logo amanhece, e já não seremos mais quem fomos. Como agora, sem carnaval, vamos nos justificar? E até o próximo, o que será de nós?
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